De repente, é Fevereiro e o mundo enche-se de corações, declarações e jantares marcados com semanas de antecedência. Fala-se de amor como se fosse o mês exclusivo para o celebrar, mas basta olhar com um bocadinho mais de atenção para perceber que há outras relações que mexem connosco, e muito.
Relações profissionais. Quem nunca entrou numa empresa com a sensação de estar no sítio certo, rodeado das pessoas certas? As conversas são incríveis, o projeto parece perfeito, as pessoas parecem alinhadas e o futuro promissor.
Tudo faz sentido. O início é recheado de e-mails calorosos, reuniões cheias de energia, frases motivacionais que nos elevam o ego até às estrelas. É difícil não gostar e é, igualmente difícil não acreditar.
Meses depois, sem grande aviso, a narrativa começa a mudar. Não há um momento exato, mas o reconhecimento abranda, o feedback (quando existe) muda de tom, as expectativas crescem, mas as condições nem por isso. Muitas vezes, surge ainda aquela sensação estranha, quase impossível de explicar, de que algo deixou de bater cedo.
Quando se tenta verbalizar ouvimos que estamos a exagerar, que “sempre foi assim” e que tudo é normal. A dúvida instala-se, não sobre a empresa, mas sobre nós próprios.
Nada disto aparece no manual de cultura organizacional intitulado “Somos uma família”. Uma frase bonita, incontornável e até reconfortante. As empresas não são famílias, mas sim organizações com objetivos, métricas, decisões difíceis e, muitas vezes, vínculos condicionais. E não há nada de errado nisso.
O desconforto começa quando o discurso emocional não acompanha a realidade. Quando se vende uma história de amor, mas se pratica algo bem mais transacional. No fundo, como em qualquer relação, o que pesa não são as declarações, mas as atitudes. Não é o que se promete, mas o que se vive no dia a dia:
Love bombing
Excesso inicial de entusiasmo, validação e promessas, seguido de uma quebra abrupta na atenção ou reconhecimento. Muito comum em recrutamento e onboarding.
Gaslighting
Quando alguém é levado a duvidar da própria perceção ou memória. A típica frase “estás a exagerar”.
Hulstle Culture
Glorificação do excesso de trabalho. Descanso vira culpa e ocupação é vista como estatuto.
Produtividade tóxica
Quando estar ocupado é mais valorizado do que gerar impacto real. Quando se valoriza presença física, ou aparência de trabalho, em vez de resultados.
Micromanagement
Controlo excessivo sobre tarefas e decisões que se traduz em falta de autonomia, ansiedade e desgaste.
Cultura de medo
Ambientes onde errar, discordar ou questionar tem consequências implícitas. Normalmente disfarçada de “exigência” ou “alta performance”.
Neste Dia dos Namorados, talvez valha a pena um exercício pouco romântico, mas life changing: olhar para as relações profissionais com a mesma lucidez com que analisamos as pessoais.
Também vale a pena lembrar que nem todo o ambiente cool é saudável, nem toda a empresa encantadora no início é, necessariamente, uma boa relação a longo prazo e, tal como na vida, quanto mais cedo reconhecermos os sinais, menos corações terão de se partir.