Há momentos curiosos na vida profissional e, um deles, é quando decidimos sair da empresa que outrora nos abriu portas.
Não é uma decisão impulsiva. Raramente é. Costuma vir depois de semanas, meses e, em muitos casos, anos de pequenas revelações por parte da liderança, falta de progressão, desalinhamento cultural, falta de estímulos ou cansaço silencioso.
E eis que surge uma proposta externa. Enchemo-nos de coragem, comunicamos que queremos sair e, quase como por magia, a empresa que não nos via, ouvia, nem reagia passa, subitamente, a colocar todas as fichas na nossa permanência. Com rapidez, interesse e urgência, apresenta a famosa contraproposta, geralmente, acompanhada por mais salário, novo título e grandes promessas. À primeira vista, sentimo-nos reconfortados com tamanha validação, mas também podemos duvidar se não será um presente envenenado.
Diversos estudos de gestão de carreira e relatórios de mercado apontam para uma realidade desconfortável: entre 50% e 80% dos profissionais que aceitam uma contraproposta acabam por sair, ou são dispensados nos 6 a 12 meses seguintes. Impressionante, mas faz todo o sentido, até porque, o motivo que nos fez apresentar a carta de rescisão, não foi verdadeiramente ultrapassado.
Na maioria dos casos, a contraproposta resolve apenas um sintoma, não resolvendo a causa. Se a questão era cultural, continua a ser; se era relacional, mantém-se; se era falta de perspetiva, dificilmente desaparece com um ajuste salarial.

“Aceitar uma contraproposta pode trazer alívio imediato e uma luz ao fundo do túnel, mas muitas vezes funciona como um simples adiamento do inevitável.”
Andreia Queirós – Senior Talent Advisor
Há ainda um pequeno, mas crítico, fator psicológico: quando um profissional manifesta a intenção de sair, algo muda, inevitavelmente, na dinâmica da relação. A confiança é reavaliada, as expectativas alteram e a perceção de compromisso fica, por vezes, marcada por uma fissura invisível.
Do lado das organizações, também é importante reconhecer uma realidade pragmática: nem todas as contrapropostas nascem de uma súbita transformação estratégica, mas podem também servir para ganhar tempo, evitar disrupção imediata ou assegurar transições menos violentas. Pode ser uma forma de gerir o risco.
É legítimo questionar o porquê de aceitar. Será que algo essencial mudou ou é apenas confortável ficar? Ficar é familiar, previsível e seguro, enquanto que sair implica risco, adaptação e recomeços.
Aceitar uma contraproposta não é, por definição, uma decisão errada, mas merece lucidez e uma postura menos emocional, mais estratégica e repleta de honestidade por parte de quem gostaria de sair da empresa. Afinal, a questão nunca é apenas salarial, mas sim sobre alinhamento, percurso e sobre o que nos faz, ou não, querer continuar.
E isso, dificilmente se compra sob pressão.