Porque é que o candidato é que é “saltitão”?

Porque é que o candidato é que é “saltitão”?

Há expressões que entram no vocabulário do recrutamento com uma facilidade perigosa. “Currículo saltitão” é uma delas. Descreve candidatos que passaram por várias empresas em pouco tempo, que mudaram de função, de setor, de projeto ou de contexto profissional com alguma frequência. À primeira vista, parece uma análise objetiva, mas, muitas vezes, é apenas um julgamento embrulhado em linguagem de RH. O candidato é instável, não sabe o que quer, não aguenta pressão, não cria raízes e, seguramente, vai sair ao fim de seis meses.

Curiosamente, raramente se aplica o mesmo escrutínio à empresa.

Porque é que a pessoa saiu? O que lhe foi prometido? O que encontrou quando chegou? A função correspondia à descrição inicial? A liderança era aquilo que tinha sido vendida no processo? Havia condições reais para crescer, contribuir e ficar? Ou havia apenas uma cultura bonita no LinkedIn, um onboarding emocional e uma mesa de fruta com pretensões de estratégia de retenção?



Porque é que chamamos “saltitão” ao candidato, mas não chamamos “escorregadia” à empresa?

Durante muito tempo, a permanência foi confundida com valor. Um currículo com muitos anos na mesma organização era visto como sinal de lealdade, maturidade e consistência. E pode ser, mas também pode ser sinal de medo, acomodação ou falta de alternativas. Da mesma forma, um currículo com várias experiências pode indicar instabilidade, mas também pode indicar coragem, capacidade de adaptação, aprendizagem rápida e recusa em permanecer onde não há coerência.

A questão não está no número de empresas por onde alguém passou, mas pode estar na história que esse percurso conta. Uma história raramente unilateral.

Um candidato que muda muitas vezes pode, naturalmente, levantar questões, mas uma empresa onde muitas pessoas saem rapidamente também deveria levantar algumas. Uma organização que contrata, substitui, recontrata e volta a substituir para a mesma função talvez não esteja perante uma sucessão azarada de “maus candidatos”, mas sim perante um problema estrutural que insiste em não diagnosticar.

É mais fácil procurar falhas no CV do que olhar para dentro. É mais fácil perguntar “porque é que saiu?” do que perguntar “porque é que ninguém fica?”. É mais confortável analisar a trajetória do candidato do que analisar a promessa feita pela empresa. 

E, no entanto, a retenção não começa quando alguém apresenta a carta de demissão. Começa no anúncio de emprego, na entrevista, na transparência com que se fala da função, da equipa, da liderança, do salário, da progressão, da flexibilidade, da carga de trabalho e até das dificuldades do contexto.

Quando uma empresa vende uma realidade que não existe, não está a recrutar. Está a criar uma futura saída.

Talvez o candidato não esteja a saltar de emprego em emprego, mas sim a saltar de desilusão em desilusão, e aqui, entra uma ideia que o mercado resiste em aceitar: as pessoas não ficam apenas porque assinaram um contrato. Ficam quando encontram coerência. 

Claro que há candidatos pouco consistentes e decisões precipitadas. Claro que há profissionais que mudam sem critério, sem reflexão e sem compromisso, mas também há empresas que não fazem bem o seu trabalho.

A diferença é que o candidato leva a fama no currículo e a empresa, muitas vezes, continua com a reputação intacta. No entanto, as pessoas começaram a fazer uma coisa profundamente inconveniente: sair quando aquilo que lhes foi vendido não corresponde ao que lhes foi entregue, o que, muitas vezes, não é necessariamente instabilidade. Às vezes, é lucidez.

Um currículo não conta apenas a história de uma pessoa. Também deixa pistas sobre os lugares onde essa pessoa tentou ficar e, em muitos casos, o problema não esteja em quem salta, mas sim no chão que estava escorregadio.