Se ainda precisamos de assinalar o Dia da Mulher, algo falhou

Se ainda precisamos de assinalar o Dia da Mulher, algo falhou

Todos os anos, no dia 8 de março, as redes sociais enchem-se de flores, mensagens inspiradoras e fotografias a celebrar o Dia Internacional da Mulher, mas há algo que pouca gente questiona: se ainda precisamos de um dia para celebrar a igualdade, é porque ela ainda não existe?

O Dia da Mulher nasceu em 1911, numa altura em que as mulheres lutavam por direitos básicos: votar, trabalhar em determinadas profissões ou receber salário. Mais de um século depois, celebramos progressos inegáveis, mas os números mostram que a história ainda não terminou.

Segundo o World Economic Forum, faltam cerca de 130 anos para o mundo atingir a igualdade. Isto se o ritmo não abrandar. Na União Europeia, os dados também mostram que ainda existe um longo caminho pela frente, uma vez que, as mulheres ganham, em média, menos 13% do que os homens e apenas 1 em cada 3 ocupa um cargo de liderança. Em áreas como tecnologia ou engenharia, a presença feminina continua abaixo dos 30%.

Em Portugal, também existem contrastes. Apesar de representarem mais de 60% da população licenciada, as mulheres continuam sub-representadas em posições executivas e conselhos de administração, o que nos leva a concluir que são as mulheres que investem mais nos estudos, mas não chegam facilmente ao topo.

O percurso entre talento e liderança continua a revelar falhas estruturais.

O talento existe. As mulheres estão nas universidades, nas empresas, nos processos de recrutamento. O que muitas vezes não existe é o contexto certo para esse talento crescer. Barreiras invisíveis, expectativas culturais, redes de influência demasiado fechadas ou, simplesmente, sistemas organizacionais pouco atuais.

Celebrar este dia pode ser importante, mas a verdadeira preocupação não deveria ser: “o que vamos publicar hoje?”, mas sim, questões como:

  • Como estão distribuídas as posições de liderança na empresa?
  • Existe diferença salarial?
  • Quem está, ou não, a ser promovido?
  • Que talento pode estar a ficar para trás sem sequer nos apercebermos?

A igualdade não se mede em campanhas, flores ou chocolates. Mede-se em decisões.

Acreditamos que o objetivo deste dia é simples: um dia deixar de celebrá-lo. A igualdade tem de fazer parte do funcionamento natural das organizações e da sociedade, e não algo que precisa de ser lembrado uma vez por ano.

É importante dizê-lo com clareza: questionar a necessidade do Dia da Mulher não significa esquecer a história que nos trouxe até aqui. Pelo contrário. Os direitos que hoje consideramos básicos foram conquistados graças à coragem de gerações de mulheres que desafiaram normas, quebraram barreiras e abriram portas para as que vieram depois.

Até lá, o dia 8 de março continua a ser mais do que uma celebração e um lembrete de que ainda há trabalho por fazer, e que, esse trabalho começa todos os dias.